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André Galindo da Costa1

Luca Bartolomeo de Pacioli nasceu no ano de 1445 em Sansepolcro na região da Toscana, Itália. Ele se tornou conhecido por sistematizar um método de escrituração contábil muito popular e que ainda é bastante utilizado nos dias de hoje. Esse é o método das partidas dobradas.

Tal prática lhe renderia o título de pai da contabilidade moderna. Desse modo faz-se necessário para todos aqueles que de alguma forma relacionam-se com as ciências contábeis conhecer um pouco sobre a vida e o pensamento desse importante estudioso.
Para compreender algo sobre Luca Pacioli é importante também saber um pouco sobre o momento histórico no qual ele esteva inserido, que foi o do Renascimento. A civilização ocidental ficaria profundamente marcada a partir do final do século XIV por vivenciar um conjunto de transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e científicas. Tais mudanças ocorreriam até o início do século XVII e hoje recebe o nome de Renascimento. O Renascimento representou uma ruptura com muitos dos valores propagados no período medieval e a exaltação de novos valores, como, por exemplo: o modo de vida burguês, a oposição a paradigmas religiosos propagados pela Igreja Católica, o humanismo, o antropocentrismo, o naturalismo, o hedonismo, o individualismo, o racionalismo e a retomada de conhecimentos populares durante a antiguidade clássica.
A Itália, que se quer era um Estado unificado na época, teve um papel fundamental nesse contexto. Toscana, região da Itália onde Luca Pacioli nasceu, viveu e morreu, é apontada como o lugar onde se originou o processo de Renascimento e de onde surgiram importantes nomes da literatura, arquitetura, artes plásticas, matemática, engenharia, anatomia e de outras áreas. Por toda Itália as mais diversas obras, descobertas e redescobertas eram promovidas e figuras geniais se popularizavam pelos seus trabalhos, como: Maquiavel, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael, Donatello, Brunelleschi e Botticelli. A família Médici se destacava como financiadores de produções intelectuais e artísticas em Florença, enquanto o comércio funcionava a todo vapor em Veneza, Milão e Genova.
Foi nesse contexto do Renascimento italiano que Luca Pacioli estava inserido. Ele foi um monge franciscano que distinguiu pelo estudo da matemática. Em 1494 viria a público seu tratado Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Propotionalità, que pode ser traduzido para o português como: Conhecimentos de Aritmética, Geometria, Proporção e Proporcionalidade. Foi no capítulo Tratactus de Computis et Scripturis que ele descreve o método das partidas dobradas. Tal método não foi uma invenção do frei franciscano e muito menos ele reivindica isso. Na realidade Pacioli foi hábil ao realizar uma descrição de forma organizada e sistematizada desse método. As partidas dobradas já eram utilizadas na Itália há muito tempo e tornaram-se ainda mais populares no período do Renascimento por conta da intensidade das atividades comerciais. Existem livros da Comuna de Gênova datados no ano de 1340 onde a escrituração foi feita pelo método das partidas dobradas. O criador desse método, se é que se pode atribuir isso a uma única pessoa, permanece até hoje desconhecido.
Tal obra na forma de tratado teve o propósito de servir como um manual de boas práticas para os comerciantes. A Summa faz a definição do que é o inventário e trouxe instruções para a produção e a autenticação de diversos livros mercantis. Trazia explicações sobre registro de operações, correções de erros, arquivamento de contas e documentos, como abrir e fechar contas, etc.
O método das partidas dobradas é uma teoria que se baseia no pressuposto de que nas operações contábeis, sempre que houver lançamentos em contas de débito, esses lançamentos devem corresponder a lançamentos no mesmo valor em contas de crédito, e vice-versa. Assim pressupõe-se que não há devedor sem que se tenha um credor correspondente e para todo débito haverá um crédito no mesmo valor. Esse método também é conhecido como método digráfico e presume a existência de três grupos de pessoas que mantêm relações entre si: o proprietário, que é o titular de determinado patrimônio; os agentes consignatários, que são aqueles a quem o proprietário confia a guarda de seu patrimônio; e os correspondentes, que são aqueles que são externos a empresa, mas com quem se tem uma conta a pagar ou a receber.
O método das partidas dobradas divulgado por Luca Pacioli em seu tratado ajudou a popularizar a contabilidade na Europa e em todo o mundo.  Esse método é hoje o método de escrituração contábil mais adotado. Portanto, deve-se destacar a importância que esse pensador teve para o desenvolvimento e a popularização da contabilidade. Pacioli escreveu ainda outra obra importante publicada em 1509 e que tratava sobre proporções artísticas: De Divina Proportioni. Tamanho o seu reconhecimento na época, foi convidado para ensinar matemática na corte do Rei Ludovico em Milão. Também foi professor e amigo pessoal de Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios da história da humanidade. O Frei franciscano Luca Pacioli morreu em um mosteiro de Sansepolcro, em 1517 e hoje deve ser visto não apenas como pai da contabilidade, mas também como um dos responsáveis pelas transformações de paradigmas que contribuíram para a passagem da idade média para a idade moderna.

Referências
ALOE, Armando e VALLE Francisco. Frá Luca Pacioli e seu tratado de escrituração de contas, editora Atlas, São Paulo, 1966.
CARVALHO, Antônio Pires de. Comércio e Civilização. Edição do autor, Coimbra, 1992.
CARVALHO, Carlos de. Luca Paciolo. Fundação Alvares Penteado, São Paulo, 1994.
FERREIRA, Ricardo. Contabilidade Básica. 7 ed. Rio de Janeiro, Ferreria, 2009.
PEÑA, Enrique Fernandez. Historia de la Contabilidad : Actualidad de su  estudio e investigación. Revista de Contabilidade e Comércio. Porto, n. 4, 1996.
SÁ, Antonio Lopes de. Luca Pacioli: um mestre do renascimento. ed. 2º, Brasília, Fundação Brasileira de Contabilidade, 2004.
ZERBI, Tommaso - Le origini della Partita Doppia, editor Marzorati, Milão, 1952.

 

 

¹Andre Galindo da Costa, professor e assessor da Escola de Contas, mestre em Ciências pela USP e pesquisador nas áreas de gestão pública, finanças públicas e participação política.


 

Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.


Comentários

0 # António manico 30-05-2017 10:52
como verdadeiramente estudar o método das partidas dobradas
0 # Escola de Contas 30-05-2017 15:52
Boa tarde, Antônio.

Agradecemos o contato e as considerações.

Atenciosamente,

Escola de Contas

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