Avaliação do Usuário

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*Antonio Roberto Batista

Infelizmente, a palavra “crack”, que num passado não tão distante servia para denominar boleiros de grande talento, passou a ter uma nova e destrutiva conotação.


Esse termo frequenta, agora, as nossas conversas e os noticiários para se referir a uma das mais graves questões de saúde pública que nos afetam. Quando dizemos que é um importante problema de saúde não ignoramos, também, ser um problema social em todas as suas dimensões e inclusive, com toda certeza, de segurança pública.

Até os anos 70, o principal consumo conhecido da cocaína era através do pó em contato com as mucosas, principalmente fossas nasais e gengivas. Surgiu, depois, o hábito de fumar pasta de folhas maceradas com ácido ou solventes. Em meados da década de 80 surgiu o crack, pela mistura de cloridrato de cocaína com bicarbonato de sódio e água, inicialmente como uma produção caseira em zonas marginalizadas de cidades norte-americanas (Los Angeles, New York e Miami). Sua qualidade é bastante variável contendo, com frequência, diversas impurezas e outras substâncias nocivas. O nome deriva de referência aos estalidos produzidos ao ser queimada para consumo através, principalmente, de cachimbos. Desde o princípio, o principal atrativo dessa nova formulação foi o seu baixo preço, accessível a jovens e populações de reduzido poder aquisitivo. Gradualmente foi, depois, se expandindo para todas as classes sociais.

O crack, sendo usado diretamente por via inalatória, tem por característica um efeito intenso e de curta duração levando, rapidamente, ao desejo por uma nova dose, o que facilita o breve surgimento da dependência física e psíquica. O cérebro é atingido pela droga em 6 a 8 segundos, com a duração dos efeitos por cerca de 5 minutos ou pouco mais que isso.

A utilização, no Brasil, dessa potente droga ilícita, vem sendo observada em idades cada vez mais precoces. O perfil mais frequente de usuário é de jovem do sexo masculino com baixa escolaridade, baixa renda e família desestruturada. Esse perfil, entretanto, está cada vez mais longe de significar exclusividade, já se verificando, inclusive, um percentual considerável de portadores de diploma superior nessa população. A presença de usuárias do sexo feminino cresceu e continua crescendo a partir do ano 2000, com todos os corolários de gravidade decorrentes, inclusive o surgimento dos recém-nascidos já comprometidos pela drogadição materna. Trata-se, ainda, de uma droga que propicia ao usuário envolvimento relativo ainda maior com criminalidade, prostituição e situação de rua do que outras dependências químicas. Se considerarmos que as doenças têm, em maior ou menor grau, repercussão sobre as três dimensões clássicas da saúde – física, mental e social – podemos afirmar que a dependência química atinge com intensidade esses três componentes. No caso do crack, atinge com uma violência extraordinária.

Estamos falando de um neurotóxico potente, central e periférico, agindo sobre sistemas neuro-hormonais, neuromusculares, com efeitos comportamentais e comprometimento cognitivo de curto e longo prazo. Tem repercussões significativas sobre o aparelho cardiovascular, sobre o metabolismo, a musculatura lisa, as secreções e a sudorese. Além dos efeitos da droga principal, é lícito lembrar que outras sustâncias presentes também agem conforme a sua natureza. Somando-se a isso, pelos desvios comportamentais associados à drogadição, o usuário fica exposto a diversas contaminações como hepatites, HIV, doenças sexualmente transmissíveis de variados tipos, com alta incidência observada em todas elas. A prevalência de sífilis, por exemplo, elevou-se de forma inimaginável, trazendo de volta uma doença que considerávamos praticamente dominada.

Em consequência do que aqui está resumidamente descrito podemos, facilmente, perceber que o enfrentamento dessa chaga social requer abordagem multissetorial e multidisciplinar. É necessário vê-la sob o ângulo da saúde, como dependência química precedida e agravada concomitante e subsequentemente por manifestações de ordem psiquiátrica, mas também demandando diversas outras especialidades, dado o amplo espectro de comorbidades associado. Tem um forte impacto de saúde pública. Causas externas (homicídio, suicídio e acidentes) incidem mais fortemente. Há, obviamente, uma carência de assistência social complexa, particularmente no que se refere à ruptura dos vínculos familiares, de trabalho, da capacidade de automanutenção e crescente empobrecimento de todos os laços de relacionamento. Embora existam quadros de dependência crônica, com atenuação do roteiro autodestrutivo típico, a tendência predominante é para essas pessoas se tornarem totalmente incapazes de tomar decisões minimamente consequentes em relação à própria vida. O “vício”, como se dizia antigamente, escraviza e acaba por se tornar o centro da sua existência.

Não se pode ignorar, também, as fortes demandas de segurança pública. A mais grave delas é a que diz respeito à dinâmica própria do tráfico de drogas ilícitas e ao microtráfico. A estratégia de sobrevivência dos dependentes em relação à cobrança implacável de dívidas com fornecedores é um dos impulsionadores de comportamentos como a prostituição e os furtos de ocasião. Acabam por ocorrer atos de violência envolvendo os próprios usuários, pessoas do seu relacionamento atual ou pregresso e a aglomeração dos dependentes em determinadas localidades provoca a deterioração econômica dessas áreas, com severos prejuízos para os bens públicos e privados.

A extensa rede de ilicitude, crime e degradação associada internacionalmente ao tráfico de drogas dispensa comentários. O custo direto que representa não é difícil de compreender, mesmo que possa, frequentemente, ser subestimado. O que muitas vezes parece relativamente esquecido é o incalculável custo social representado pelo capital humano destruído e desperdiçado. Trata-se de uma parcela da população perdida, para si e para a sociedade.

 

*Antonio Roberto Batista - Médico - Escola Paulista de Medicina, graduado em Saúde Pública - USP
Especialista em Medicina do Trabalho – AMB, Mestre em Ciências - USP
Especialista em Filosofia - PUCCAMP


Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.


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