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*Marisa Moura Verdade

Recentemente, três adolescentes com idades entre 15 e 17 anos, alunos do nível médio de renomados colégios particulares da cidade de São Paulo, cometeram suicídio. Quando a notícia repercutiu nas redes sociais surgiram comentários sobre suicídios de alunos de outras escolas, não confirmados. Boatos sobre jogos e aplicativos associados a mortes de adolescentes alarmaram ainda mais famílias e educadores. Alunos de diferentes escolas levaram a notícia dos suicídios para as salas de aula, compartilhando seus sentimentos e a necessidade de conversar sobre perdas e luto. Psicólogos especializados na prevenção do suicídio foram contratados por colégios interessados em reavaliar o tratamento dado aos problemas da morte, das perdas e do luto. Estamos diante de fatos obscuros e traumáticos, que a cultura contemporânea prefere silenciar.

 Suicídio é assunto tabu. Em geral, a sociedade não aceita a ideia de que é possível alguém querer se matar. Essa atitude não corresponde aos fatos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), suicídio é um grave problema de saúde pública, que muitos governos preferem ignorar. Nesses casos, mortes por suicídio permanecem sem prevenção adequada e tratamento eficaz.  No Brasil, 25 pessoas se matam por dia –  nosso país é o 11º colocado no ranking mundial de suicídios (OMS). Dessas 25 pessoas, duas são crianças e adolescentes. Pesquisas recentes indicam aumentos preocupantes nas tentativas de suicídio entre os mais jovens, especialmente no universo dos 8 aos 17 anos. Até 8 anos, ferimentos e mortes autoprovocados são automaticamente classificados como acidentes. Esses números deixam uma interrogação dolorosa:  por que crianças e adolescentes tentam se matar?

Não é possível atribuir causas específicas ao suicídio dos jovens. Alguns estudos identificam fatores que mobilizam  ideias e fantasias sobre a própria morte, tais como sentimentos de abandono, experiências de abusos físicos ou sexuais, desorganização familiar, vivências de inadequação na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro. A  morte  de amigos ou pessoas da família – sobretudo por suicídio -  tende a estimular fantasias e ideias sobre a própria morte. Para especialistas, os principais motivos são a depressão, o abuso de drogas e álcool e o bullying, intensificado no ambiente escolar. Frequentemente, uma autoestima baixa participa das tentativas de suicídio. Por isso, a grande influência das redes sociais no cotidiano contemporâneo merece avaliações cuidadosas. Um ponto importante é a impressão de que, no mundo virtual, todos estão felizes com a vida que vivem. Essa felicidade, que parece obrigatória, pode contribuir para aumentar a angústia dos adolescentes e nutrir ideias suicidas. No entanto, raramente familiares e educadores estão conscientes dos riscos de suicídio e da sua prevenção. A preocupação cautelosa tende a ser reativa – segue o medo instalado quando os mais novos se matam.

Todo suicídio pressupõe uma dúvida existencial: vale a pena viver a vida que estou vivendo?  A pergunta é um convite para refletir sobre a vida, compartilhando sofrimentos insuportáveis e experiências   silenciadas. Se alguém fala em cometer suicídio é porque algo não vai bem e realmente merece atenção. A prevenção do suicídio supõe abertura para falar da morte – de qualquer morte, principalmente da morte imposta a si mesmo. A conscientização de impulsos suicidas implica ruptura com o tabu que inibe reflexões sobre a morte e o morrer.

Palavras chave: suicídio de adolescentes, prevenção, qualidade de vida.

*Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião do IP-USP.  Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP).


 Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.


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