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*Danilo André Fuster

Nunca é demais dizer que o contexto da guerra fria teve em alguma medida consequências para todos os países do globo. Em maior ou menor grau durante o período em que Estados Unidos em União Soviética disputavam a conquista de regiões de influência houve interferências sobre outros os governos. Não foram poucos os conflitos armados onde ambos estiveram direta ou indiretamente envolvidos.

Durante os anos 60/70 na América Latina, sobretudo nas regiões urbanas onde a luta de classe esteve evidenciada, acontecimentos históricos com a Revolução Cubana e a guerra de libertação Vietnã alimentavam o anseio das camadas populares por reformas estruturais. Diante disso, procurando conter a aproximação da URSS aos países da América os EUA lançam uma política externa de combate ao comunismo.

A chamada “Doutrina de Segurança Nacional”, criada pelo então presidente Americano Harry Truman, pregava que os EUA intervieram militarmente em outros países se assim fosse necessário para conter o avanço comunista, sendo que qualquer agressão aos regimes polarizados ao americano  seria considerada como uma agressão a Segurança Nacional dos EUA.

Desta forma, diferente do que ocorria na Europa onde a política de bem estar social servia de mecanismo de contenção à proliferação dos ideais comunistas, na América do Sul, ou mais precisamente nos países que compõem o cone sul, a DSN foi o alicerce para as classes dirigentes daqueles países instalarem e manterem governos fortes que reprimiam a qualquer custo todo foco de  questionamento ao sistema vigente.

Nas diretrizes dessa política, a agência de inteligência norte americana ofereceu e treinou militares dos países do cone sul para instaurarem governos autoritários em seus respectivos países e, dessa forma, poderem atuar com mais força na eliminação oposição ao governo apoiado pelos EUA.

Assim, aparelhos ideológicos foram construídos para difundir na sociedade o sentimento de inimigo interno, guerra interna, subversão, contra insurgência, objetivos nacionais, etc. com o intuito de estabelecer o medo na população e dar espaço a ditaduras apoiadas pelos EUA que as alimentavam em recursos financeiros, treinamento militar, técnicas de tortura, espionagem e muitos mais elementos, mantendo os ideais da DSN vivos durante vários anos na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.

Especificamente no Brasil, coube à Escola Superior de Guerra a sistematização e difusão da Doutrina de Segurança Nacional. Por meio de contato dos militares brasileiros com a National War College, escola onde a elite da força nacional teve acesso a técnicas de aperfeiçoamento das forças armadas americanas, estabeleceu-se linhas de cooperação e atuação estratégica entre Brasil e Estados Unidos. Fruto dessa integração, somados ao desejo dos militares de tomarem a frente no desenvolvimento nacional, em 1951 é criada a Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra que passa a difundir os ideários da DSN. Em 1964 surge o Sistema Nacional de Informação, criado também pela ESG, que tinha objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações das principais lideranças políticas, sindicais e empresariais do país.

Assim como no Brasil, na Argentina os militares também receberam treinamento das forcas norte americanas e, da mesma forma que ocorreu em nosso país, nesse momento a Argentina teve o primeiro contato com DSN que a partir de 1976, momento em que a doutrina seria incorporada àquele país.

No Uruguai a DNS esteve amplamente ligada aos interesses da classe dominante local e do capital estrangeiro. Nos anos 60 o país vive uma crise política e econômica que prossegue até o golpe em 1973.De 1973 a 1984 a ditadura civil-militar uruguaia, seguindo os moldes da política de segurança nacional, mantém a chamada Política de Terror de Estado – TDE. O início dessa política deve-se principalmente aos acordos militares estabelecidos com os EUA que influenciou diretamente as publicações de governo que se seguiram logo após a deflagração do golpe.

Desta forma, com o objetivo de enquadrar o país numa lógica de proteção do hemisfério sul promovida pelos EUA, diversas obras de cunho ideológico doutrinário sobre a égide da DNS foram intensamente difundidas pelo país a partir de 1973. Dentre os principais o argumento dessas obras destaca-se a guerra total e defesa contra agressões externas, manutenção ordem da Cristã e ocidental e medo de infecção pelo vírus social do comunismo.

Porém, se é possível determinar um lugar onde DSN existiu plenamente este lugar foi o Chile. A história do país teve reflexos da guerra fria desde a articulação para derrubada de um governo popular e democrático nos 70.

Recentemente foram revelados documentos que comprovam a ligação direta dos americanos com o golpe de estado no Chile. Esses documentos apresentam fatos que comprovam o envolvimento dos EUA na política chilena entre 1962 e 1975. Através de operações secretas a agencia de inteligência americana procurava impedir que Allende fosse eleito. Como não teve êxito, a CIA  trabalhou para desestabilizar seu governo até que em 1973 ajudou a instaurar e manter a ditadura de Pinochet que durou 17 anos.

Após o sangrento golpe de Estado que derrubou o governo socialista de Allende o Chile passou a ter, paralelamente, no plano político um governo extremante violento e perseguidor da oposição e no aspecto econômico o país alinhado aos interesses do capital. 

Palavras chave: Regime Militar, EUA, Repressão, América Latina.

*Danilo André Fuster - Servidor público do município de São Paulo atuando como professor na Escola de Gestão e Contas Públicas Conselheiro Eurípedes Sales do Tribunal de Contas do Município de São Paulo, Bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela EACH-USP e mestre em Gestão de Políticas e Organizações Públicas pela UNIFESP.

REFERÊNCIA

Ayerbe, Luís Fernando. Estados Unidos e América Latina. – São Paulo, SP: Editora UNESP, 2002.

Bandeira, Luiz Alberto Moniz. A formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque. – Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 2005.

Belatto, Luiz Fernando B. - América Latina: 100 anos de opressão e utopia revolucionária. São Paulo, Klepsidra: Revista virtual de historia, ISSN 1677-8944, Nº. 5, 2000-2001

FERRI, Omar. Sequestro no Cone Sul. O caso Lílian e Universino. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981.

Galeano, Eduardo – As veias abertas da América Latina. São Paulo, Editora Paz e Terra, 1971.


Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.


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