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*Luis Eduardo Morimatsu Lourenço

A série de pequenos artigos, dividida em três partes, pretende expor - de forma breve e não exaustiva - algumas reflexões do húngaro Peter Szondi, reconhecido Filólogo, Esteta e Professor de Literatura Comparada da Universidade Livre de Berlim. Sua celebrada obra “A Teoria do Drama Moderno”, escrita em 1956, é presença certa entre os cânones da Teoria Teatral e Literária, constituindo-se como marco no desenvolvimento da crítica alemã historicamente orientada do pós-segunda grande guerra. As seguintes palavras, consequentemente, orbitarão justamente em torno desta obra.

2. Gênese do Drama clássico moderno

De acordo com o autor, o drama da época moderna surge no renascimento e é caraterizado por ter como pressuposto básico a realidade intersubjetiva efetiva, isto é, as relações interpessoais objetivamente dadas em certo contexto sócio histórico. O indivíduo do drama já é sempre um indivíduo absolutamente socializado, inserido em uma comunidade e, desta feita, suas ações enquanto produtos de sua vontade e decisão terão como pano de fundo - muitas vezes em relação de oposição - este horizonte sócio histórico constituído. Neste sentido, o inexprimível ou o já expresso (enquanto pressuposto) são, nas palavras de Szondi, estranhos ao drama. A natureza última das coisas, enquanto significação pura estabelecida a partir do ponto de vista de “lugar nenhum”, não se constitui enquanto objeto do drama moderno: pois ao fim da idade média, a própria noção da “realidade” enquanto expressão de um significado que a transcende, enquanto corporificação de uma forma pura de significação primordial, já não constitui o tema primordial da ação dramática, dado que, por definição, tal âmbito não seria objeto passível de investigação tão somente a partir das relações intersubjetivas. Em palavras mais simples: o Drama teria como tema as relações de homens entre homens, simplesmente. Neste sentido, o próprio Szondi: “Toda a temática do drama se formulava na esfera do “inter”. Por exemplo, a luta de passion e devoir na situação do Cid, colocado entre seu pai e sua amada; o paradoxo cômico nas situações intersubjetivas “enviesadas”, como na de Adam, o juiz de aldeia; e a tragédia da individuação, como aparecia em Hebbel, no trágico conflito entre o duque Ernst, Albrecht e Agnes Bernauer”

Tendo o Drama como Leitmotiv as relações intersubjetivas, seu meio linguístico típico não poderia deixar de ser o diálogo: pela primeira vez na história do teatro ele se torna o “único componente da textura dramática”. No Drama, trata-se ainda de uma trama fechada em si mesma, absoluta, ou seja, sua significação não apela para nenhuma estância exterior a si mesma. Mesmo o dramaturgo está ausente: os diálogos e as situações não devem ser expostos como pertencentes a um autor que maquina toda a situação a partir de fora, em sua presença espectral. A presença de um autor enquanto constituidor não é e não deve ser - parte essencial da obra.

Compreenda-se drama enquanto obra destinada à encenação teatral

Da mesma forma, o público é externo e alheio ao que se passa, como se diante de si brilhasse um segundo mundo: não participa absolutamente enquanto interventor externo ou como sujeito ativo do ocorrido no representado. Em sua passividade, identifica-se absolutamente ao personagem, em completa despersonalização. O próprio jogo cênico tem esta função de constituir um mundo novo, completo em si mesmo, inclusive com duração própria: entre o fiat lux e o fechar das cortinas. Da mesma maneira, a relação do ator com seu papel deve refletir esta completa despersonalização, o que garante o caráter significativamente fechado ao exterior do Drama: ator e papel são um e o mesmo.

Pois o Drama é originário. Isto significa que ele não pretende reproduzir ou espelhar algo dado de antemão: ele, o drama moderno, é o fato primordial mesmo, é a constituição progressiva de um mundo originário. Desta forma, distingue-se de toda peça histórica: o mero recontar de algo que já não se constitui originariamente no decorrer da peça não é do âmbito do dramático. A rememoração de algo já conhecido, enquanto rememoração, sempre requer um tratamento épico. O drama é sempre presente, reflete o contínuum do tempo enquanto unidade fechada estrutural: o presente entre o passado e o futuro é, em verdade, presente absoluto, que contem em si mesmo todo o passado e o futuro. Não por acaso, unidade de tempo e unidade de lugar são fundamentos do Drama, pois somente desta maneira seria possível conceber tal unidade absoluta, fechada em si mesma. Da mesma maneira, já não há espaço para qualquer Deus ex Machina: as motivações e finalidades das ações, assim como seus desfechos, são imanentes à própria trama. Da possibilidade da constituição dialética da unidade a partir dos indivíduos, constitui-se a unidade enriquecida do Drama (Szondi nesta conclusão em específico banha-se de hegelianismo, deve-se admitir). 
(Continua na 3ª parte)

 

artigo prof

 

Referência
SZONDI, Peter. Teoria do Drama moderno. São Paulo: Cosac Naify, 2001.

*Luis Eduardo Morimatsu Lourenço, Doutorando em Filosofia (CAPES) pela PUC-SP, Mestre em Filosofia e Especialista em Direito Constitucional pela PUC-SP e Professor da Escola de Gestão e Contas Públicas Conselheiro Eurípedes Sales do Tribunal de Contas do Município de São Paulo.

 


 Os artigos aqui publicados não refletem a opinião da Escola de Contas do TCMSP e são de inteira responsabilidade dos seus autores.

 


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